Quase ninguém. Os raios do sol ainda eram curtos para penetrar na veneziana do quarto do violoncelista quando a morte foi despertada do seu primeiro e último sono. Impulsionada por uma força desconhecida saltou da cama e colocou-se pé. Um aroma mesclado de éter e cravo saturava o ambiente. Embora de costas para a cama, soltou um gemido rouco e dolorido quando percebeu que o ser humano que ainda há pouco agasalhara em seus braços, o homem que lhe apresentou a música redentora, agora jazia inerme entre os lençóis. Sua experiência milenar na degola lhe aguçara os sentidos a ponto de saber distinguir, mesmo à distância, o sono de pedra, também chamado de sono profundo, do sono dos justos, conhecido ainda por sono eterno. Virou-se de súbito e constatou que ao lado do músico defunto jazia o corpo encantador que há poucas horas havia sido seu. O lívido casal permanecia abraçado e unido também pelos lábios. Desnorteada, abriu os braços, abaixou o olhar e percebeu que se sustentava pelo seu indefectível esqueleto nu, inclusive sem o lençol. Não havia dado conta de que quando deixou a cama o formoso corpo provisório não a acompanhou. Notou que a bolsa da mulher repousava semi-aberta em cima do criado-mudo. Num suspiro abaixou o braço descarnado em direção ao objeto de couro, talvez numa tentativa de reconciliação com sua sina para ter de volta, ao menos, sua forma feminina que inspirava virtuoses e deixava aroma de rosa e crisântemo. Doce ilusão. Quando estava perto de tocar a alça, um calafrio na espinha a fez recuar. Do interior da bolsa ela viu sair devagar a Acherontia átropos. A borboleta movia as asas lentamente. O esqueleto afastou-se e caiu de joelhos com as mãos pensas. O cheiro era de enxofre no instante em que a Acherontia com a caveira tatuada alçou vôo e pousou na palma de sua mão. A morte pressentiu algo ruim, levantou o braço, olhou para os dedos fisgados pelas garras do inseto e, em vez da borboleta, viu que segurava um envelope violeta. Com a disposição de um escorpião prestes a experimentar seu próprio veneno, abriu a carta e leu:
“Cara senhora,
Lamento comunicar-lhe que deixará de existir no exato instante em que acabar de ler esta carta. Extrapolou suas funções ao fazer chacotas com a morte morrida alheia. Achou que seria divertido criar protocolos para o fim, escrever memorandos fúnebres, fazer arte com o último suspiro e, até, zombar de quem estica dignamente o pernil, enfim, quis ser realmente de morte. Chega de envelopes violetas, de sustos, de intermitências e de conversa fiada com o alfanje. A humanidade, por sua vez, enquanto caminha e discute a morte da bezerra, certamente vai continuar rendendo a alma, comendo o capim pela raiz ou, como alguns preferem, visitando a cidade dos pés juntos, mas, com certeza, só quando chegar a hora, nem antes, nem depois e sem aviso prévio. Quanto a você, vai esticar as canelas longe daqui”.
A assinatura em baixo, com “M” maiúsculo não deixava dúvidas do remetente. Vizinhos do violoncelista taparam os ouvidos, achando que aquele uivo triste, última homenagem do cachorro ao seu dono, seria mais um chiste da morte, a finada, a desencarnada, a que acabava de bater as botas
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